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Entrevista – Dr. Jeremiah O’Callaghan

A síntese desta entrevista, realizada em julho/2009 foi publicada na Revista JC Maschietto no 07, setembro/2009

A empresa JBS Friboi e o seu diretor para Relações com Investidores, Jeremiah O`Callaghan, têm a mesma idade: 57 anos. Uma nasceu no Brasil e o outro na Irlanda. A primeira tornou-se um gigante mundial - a maior empresa de carne bovina do mundo com faturamento anual da ordem de 30 bilhões de reais e abate diário  de 65,7 mil cabeças. Ele é conhecido como o estrangeiro  (apesar de se considerar brasileiro) que mais briga pela carne brasileira no planeta. No setor de carnes há quase 30 anos, quando aqui chegou, se especializou no comércio exterior – um dos assuntos que aborda nesta entrevista que concedeu à Revista na sede da JBS na Marginal do Tietê, na cidade de São Paulo.

Por Mônica Soutello

Revista JCM – O senhor é um pequeno pecuarista?

Eu tenho 500 bois. É mais pela paixão do que pelo negócio. Eu gosto muito. Eu tenho uma fazenda no interior de Goiás de 250 hectares, tenho uns cavalos, tenho um pequeno confinamento, uma fazenda orgânica sem ter certificado orgânico, mas é orgânica. Estou recuperando todas as áreas próximas aos córregos e aos  rios,  porque o proprietário anterior desmatou demais , então estou fazendo um trabalho de adequar a propriedade. Já aprovei a fazenda para criar gado para a Europa.

Revista JCM – Já está aprovado?

Há mais de um ano está aprovado para a Europa. Eu tenho manejo sustentável de gado, tenho  pesagem, treinamento de funcionários, tudo isto. Eu sou um pequeno pecuarista de final de semana , mas que procura fazer as coisas do jeitinho certo.

Revista JCM – Nós vamos começar exatamente levantando alguns dados pessoais seus. O senhor é de Cork, uma cidade portuária na Irlanda?

Eu sou do interior, do Condado do Cork. Nasci numa pequena propriedade rural, meu pai tinha oito vacas e uma égua e criou seis filhos em mais ou menos 12 hectares numa pequena propriedade rural, propriedade familiar.

Revista JCM – Esse universo do campo sempre esteve presente para o senhor, então?

Eu sou o terceiro filho homem. O primeiro filho homem normalmente herda a propriedade do pai, o segundo filho homem procura um emprego na região para ajudar a sustentar a família e o terceiro filho homem é incentivado a imigrar, a ir embora, ou a entrar na vida religiosa. Eu venho de uma comunidade muito religiosa. Eu fui mandado para um mosteiro e morei sete anos num mosteiro, eu estudei e fiquei enclausurado durante sete anos e virei um monge. Aos 20 anos sai do mosteiro, fiz faculdade e resolvi viajar pelo mundo. Aí eu conheci o Brasil depois de passar por diversos países. Conheci o Brasil e resolvi ficar aqui.

Revista JCM – Quando saiu para conhecer o mundo, o senhor tinha 20 anos?

Não. Eu fiz faculdade, e saí para viajar aos 23 anos. Cheguei no Brasil com 25.

Revista JCM – O senhor ficou dois anos viajando?

Viajando e trabalhando. Fui para Índia, morei uns temos na Índia, viajei por aí até chegar no Brasil.

Revista JCM – Qual é a sua religião? De que mosteiro foi?

Católico. Uma ordem de monge regionais da Irlanda,  que não existe fora da Irlanda – The Presentation Brothers. Eu nunca vi fora da Irlanda. É uma ordem de monges que está terminando. Tinham muitos mosteiros regionais na Irlanda e esse é um dos mosteiros. Eram monges especialistas em pedagogia. Éramos preparados para sermos professores.

Revista JCM – O senhor foi alguma vez na vida professor?

Não.

Revista JCM – O senhor chegou aqui no Brasil com 25 anos, rodou o Brasil antes de se instalar em São Paulo?

Não. Eu rodei depois.

Revista JCM – Chegou direto em São Paulo?

Cheguei direto em São Paulo, passei pelo Rio uma semana. Cheguei em São Paulo, tinha alguns amigos aqui, busquei emprego, busquei  documentação para ficar no Brasil e consegui documentação comecei a trabalhar meses depois, passei por algumas experiências de trabalho até conhecer o setor frigorífico e ser convidado a trabalhar no setor de carnes em 82.

Revista JCM – Qual foi o seu primeiro trabalho no Brasil antes de chegar na carne?

Professor de inglês.

Revista JCM – Então foi professor...

Eu dava aulas particulares, não é em classe, não é em grupo. Eu fiz engenharia na faculdade e fui contratado para escrever especificações técnicas de patentes de inventores brasileiros  para uma agência de marcas e patentes. Trabalhei um ano nisto. Como eu tinha um dom comercial, uma agencia de viagens que eu visitei para comprar uma viagem  me convidou para trabalhar na agência, fiquei mais ou menos um ano na agência, depois fui contratado por uma empresa de recrutamento de executivos e também fiquei mais ou menos um ano, um pouco menos de um ano, até receber o convite para ingressar no setor da carne bovina. Na época, O Brasil começava a despontar como concorrente da Argentina na exportação de carnes particularmente de carnes industrializadas. Estamos falando do ano da Guerra das Malvinas. A Guerra das Malvina foi um marco muito grande nas exportações brasileiras. Porque um dos grandes destinos de carnes, particularmente de carnes industrializadas, era a Inglaterra e houve um embargo, os ingleses   embargaram produtos argentinos na decretação da guerra e no Brasil estava iniciando um parque industrial mais sofisticado, de produtos industrializados a base da carne bovina, carne enlatadas como corned beef, carne cozidas congeladas. Eu fui convidado por uma empresa para gerenciar o desenvolvimento desse mercado de produtos industrializados particularmente na Inglaterra. Isto foi em agosto de 82. Eu iniciei desenvolvendo as vendas para supermercados e grandes importadores de marca própria na Inglaterra.

Revista JCM – Desde o primeiro momento o senhor já estava atuando no setor de comércio exterior?

Sim. Eu fui contratado posso dizer quase que exclusivamente porque falava inglês. Precisavam de gente que falasse bem inglês para comercializar os produtos. Isto é o que pesou a meu favor na época. Não era minha formação que não era de comércio internacional. Mas, pelo fato que eu já estava em vendas, eu já tinha tido uma experiência em vendas bem sucedida e eu falava fluentemente  inglês, claro, então estes foram os pré-requisitos para o emprego. Foi uma experiência que acabou dando certo, fiquei sete anos naquela empresa desenvolvemos bastante o mercado.

Revista JCM – Qual era a empresa?

Não existe mais, era conhecido como frigorífico Moura Andrade. Era na cidade de Andradina, cujo nome vem de Andrade também. Então era a família fundadora da cidade de Andradina. A fábrica era em Andradina também. Eu fui morar em Andradina na época.

Revista JCM – O senhor pode fazer uma comparação do setor de quando começou há 27 anos atrás para hoje: como era como é, quais eram e quais são as vantagens e desvantagens, as facilidades e os problemas?

Acho que tem que analisar um pouco a questão do comércio internacional, da produção e do consumo de carne bovina. No início dos anos 80, América Latina exportava basicamente produtos industrializados e poucos produtos in natura. Era o início da fase de exportação de produtos in natura, ainda bem incipiente.

Revista JCM – O senhor não começou com carne in natura?

Não, com industrializado, 1982, Guerra das Malvinas, corned beef, carne cosida .... Ao longo dos anos 1980 nós tínhamos particularmente na Europa um excedente muito grande de produção porque havia uma política de incentivo ao volume na Europa. A Europa industrializava uma montanha de carne que não se consumia no mercado doméstico europeu e que se exportava a preços subsidiadas. Então, carne in natura era totalmente dominado naquela época pelas exportações européias a preços subsidiadas, e países como Brasil ou mesmo Argentina não conseguiam ser competitivos. Gradativamente a situação vai mudando nos países desenvolvidos. Eles começaram a diminuir os incentivos e os subsídios e o consumo de carne bovina começou a crescer nos mercados emergentes já naquela época, particularmente países do Oriente Médio e do norte da África. Ao longo dos anos 1980, o Brasil começou o processo de exportação de carnes in natura, mas para aqueles mercados que eram considerados mais periféricos, problemáticos. Iraque é um grande caso. Era um mercado estrategicamente fundamental nos anos 1980.  Iraque era um mercado muito forte. Era o primeiro grande mercado para carne in natura. A Europa comprava cortes selecionados para  suprir uma necessidade que tinha de cortes de alta qualidade. Porque havia um grande consumo de cortes de alta qualidade, se produzia muita carne, mas era muita carne de segunda. Esta carne ia para estocagem era exportada a preços subsidiados, mas faltava na Europa filé mignon, contra-filé, carnes mais nobres. Então, se iniciou a exportação brasileira dessas cortes mais nobres e se iniciou a exportação de volumes maiores, mais expressivos, principalmente para o Oriente Médio nos anos 1980. Esse processo foi se desenvolvendo e, na década de 1990, tivemos algo que transformou o comércio mundial de carne bovina: a vaca louca. A vaca louca foi um divisor de águas em termos de produção, comercialização e consumo de carne bovina. Surgiu inicialmente em 1995, mas já havia  ameaças de uma crise em função da vaca louca antes. E chegou no ponto máximo em 1996, quando a Europa admitiu que havia perigo da vaca louca ser um problema de saúde humana. Aí  estava criada a crise: despencou o consumo de carne, a política de incentivo à produção na Europa foi totalmente transformado. A Europa começou a produzir menos carne excedente, a depender mais das importações, e começaram a surgir mercados até então abastecidos por produto europeu. Portanto, a explosão das exportações veio como resultado da questão da vaca louca. O Brasil por exemplo, em 1995 exportava 500 mil toneladas aproximadamente. No ano de 2001/2002 já passou de um milhão de toneladas. No ano de 2007 acho que passou de dois milhões de toneladas, quadruplicou o volume de exportação brasileira nesse período de 1995 a 2007 E sofisticou-se este mercado. Começou-se a exportar produtos de melhor qualidade para mercados mais maduros, onde se conquistava clientes mais perenes, mais constantes, mais regulares. Esse processo todo aconteceu em grande parte em função das medidas tomadas depois da vaca louca. A importância do Brasil veio crescendo no comércio internacional a partir de 2001/2002, quando começou abrir os mercados da Rússia, leste europeu, e alguns outros mercados, todos abastecidos até então ou pela Europa, ou pelos Estados Unidos. No final de 2003, houve outra questão: houve a confirmação de um caso de vaca louca nos Estados Unidos e isso causou uma redução das exportações americanas em grande escala também. Isto foi um  segundo momento que fez surgir diversos mercados para a América Latina e particularmente para o Brasil, a partir do início de 2004. Então, a vaca louca tem uma importância fundamental na história das exportações brasileiras. No ano de 2007, o Brasil chegou a representar 1/3 de toda a carne comercializada internacionalmente. Isso caiu um pouco em 2008 e 2009, mas ainda vai ser mais do que 1/4. É para você ter uma ideia de onde o Brasil chegou. Qual é o problema? O problema é que o Brasil não conseguiu superar as barreiras sanitárias e tarifárias para atingir os mercados mais maduros, mercados de maior preço, de maior poder aquisitivo. O Brasil cresceu muito nos mercados emergentes, que são mercados bons, que crescem bastante, mas que são mercados que ainda têm uma limitação de consumo de produtos de maior valor agregado. Então, o impasse do Brasil hoje, a dificuldade do Brasil hoje e os desafios tanto do setor, como do governo brasileiro, é conseguir um acesso mais efetivo nos mercados de poder aquisitivo maior aonde se pode agregar mais margens, melhorar muito o setor como um todo a partir da venda de produto com maior consumo, vender os produtos mais nobres para os mercados onde esses produtos são mais valorizados. Isso está faltando hoje.

Revista JCM – Quando o senhor começou havia praticamente todo  um mercado internacional a ser conquistado pelo Brasil  e hoje tem essa participação toda. Como era este mercado na época que o senhor começou? 

Era periférico. O ponto que nos ajudou na época foi a Guerra das Malvinas. Isso nos tirou de um pequeno player no mercado industrializado para um grande player de uma hora para a outra, porque a Inglaterra sempre foi e até hoje é o maior importador de produtos industrializados. Então, ter sido dado este mercado de bandeja em função de uma guerra foi uma oportunidade fabulosa.  Essa oportunidade é que alavancou a empresa onde trabalhei na época e alavancou diversas outras empresas do setor. Na época, havia muitas empresas que faziam produtos industrializados para o mercado internacional em função do fato de que este mercado apareceu. Havia oito ou 10 empresas que industrializavam carne para exportação na época. Hoje reduziu bastante.

Revista JCM – Esta concentração não é uma ameaça para os pecuaristas?

Em comparação com outros países, o setor frigorífico no Brasil ainda está muito pouco consolidado ou pouco concentrado; acho que devemos trocar concentrado por consolidado. Particularmente quando comparamos com o maior produtor mundial de carne bovina, que é os Estados Unidos. Lá, quatro empresas são responsáveis por 80% da carne bovina produzia naquele país. No Brasil, o setor ainda é muito fragmentado. Isso por um lado estimula a concorrência, mas por outro lado é um modelo ineficiente porque escala nesse setor é fundamental.  Diluir ao máximo as despesas de processar a carne é fundamental para valorizar mais a matéria-prima e chegar ao consumidor com um preço mais condizente. E no Brasil, qual é o grande problema de ser tão fragmentado? O custo do processamento da carne, custo de transformação de um boi num bife é muito alto ainda. Isso, na minha opinião, só pode ser superado com uma consolidação deste mercado maior.

Revista JCM – Mas, há o lado dos pequenos produtores, do mercado se sentir de certa forma ameaçado por isso. Na sua análise é o caminho porque diminui os custos. Diante de uma parcela do mercado, isso se configura como uma ameaça, não é?
 
Eu acredito que o mercado esteja equivocado em interpretar desta maneira. Nós estamos aqui pensando do ponto de vista do pecuarista. Eu sou pequeno pecuarista, posso dizer por experiência própria. Quando eu penso no meu negócio, quando eu penso nas opções que eu tenho de arrendar minha fazenda para a usina de etanol da região ou arrendar para alguém plantar soja ou milho na fazenda, ou de mantê-la na pecuária, eu penso, claro , eu tenho privilégio de conhecer um pouco mais o mercado, eu penso nos fundamentos do negócio. O que do meu ponto de vista é importante? Eu vou ter uma empresa forte que garanta a compra da minha matéria-prima.

Revista JCM – Não importa a que preço?

Importa, claro o preço.

Revista JCM – E o preço que é ofertado a seu produto não  tende a baixar?

Não necessariamente. O custo do processamento tende a baixar e aqui talvez esteja o equivoco.

Revista JCM – O preço de compra da carne do pecuarista não tende a baixar?

Não. A concentração do mercado não é necessariamente para dar maior poder de precificação na matéria prima a quem processa. Claro, se fosse somente por isso seria uma ameaça. Mas não é para isso.

Revista JCM – Não é para isso, mas acaba ocorrendo também.
 
Na analise que eu faço, a concentração no processamento ajuda a diminuir custo, a abrir novos mercados, a sofisticar a produção e agregar valor ao produto. Então, tem três fatores positivos que me agradam. O custo financeiro do processamento da carne vai diminuindo à medida que a empresa é forte. Então, eu não vou estar financiando uma empresa que tem capital de giro que é caro, é uma empresa que tem acesso aos maiores mercados domésticos e  internacionais, portanto valoriza mais a matéria prima  que eu forneço. Isso para mim é fundamental também. Claro, é necessário sempre manter a competitividade, a concorrência no mercado. Por isso, nós temos que achar o equilíbrio entre as duas coisas. No Brasil nós estamos muito longe de ter qualquer tipo de concentração que ameace dar um poder maior em termos de precificação da matéria prima para quem está processando. Isto tende a demorar muitos anos e depende das autoridades manter o equilíbrio nestas questões. Novamente vou voltar aos Estados Unidos para dar como exemplo. Quatro empresas têm 80% do mercado. Eu não vejo produtores nos Estados Unidos em guerra - o que eu classifico de equilíbrio naquele mercado.  É um mercado muito aberto com uma participação ativa das autoridades em precificar os produtos. Há um acompanhamento do departamento de concorrência do governo para evitar que ocorra uma concentração muito grande numa região. Eu acho que este é o modelo que nós temos que buscar para o Brasil. Ter todos os pontos positivos em relação a uma indústria mais concentrada porque vai trazer vantagens diversas e evitar que haja uma concentração tal que prejudica o produtor na precificação do seu produto. Este é o equilíbrio que temos que achar.

Estou neste setor há 27 anos. Eu estou neste negócio não pelo salário que recebo. É pela paixão que tenho por este setor mesmo. Para mim, o conceito de você matar a galinha que bota o ovo de ouro não existe. Isso para mim é um tiro no pé tão grande que não posso defender em momento algum essa ideia. Pecuária é um clico longo, de quatro a cinco anos, entre a prenhez da vaca até o abate do animal. A idade média no Brasil é três anos. As decisões, as mensagens que nós mandamos para os pecuaristas hoje dizem respeito à matéria-prima que vamos ter disponível daqui a quatro anos. Então, para recuperar este ciclo demora muito mais tempo. Portanto, se o nosso setor – o frigorífico – fosse tratar o seu fornecedor de uma maneira a diminuir a possibilidade dele ter uma atividade rentável, ele (está) estaria matando o seu negócio a longo prazo, não tenho nenhuma dúvida quanto a isso. Então, pensar assim para mim não é algo que dá perenidade, dá continuidade ao nosso negócio. Eu quero que meu produtor, como o frigorífico, seja bem competitivo, quero que ele ganhe bastante dinheiro, que ele tenha mais gado na propriedade dele eficientemente. Eu quero também ser eficiente, quero chegar no ponto de venda com meu produto o mais competitivo possível para ampliar o consumo, para ser competitivo nos mercados internacionais. Nós temos que ter este componente de  competitividade e eficiência em toda cadeia para conquistarmos espaço nos mercados domésticos e internacionais. Tem que ter esta competitividade, mas isto não quer dizer que eu tenha que subsidiar o outro dentro da cadeia. Se eu obrigo o meu pecuarista a financiar o meu negócio, eu estou  gradativamente matando o meu negócio.

Revista JCM – O senhor tocou num ponto: a paixão que tem pelo assunto. Por que essa paixão? Como ela é?

Tem gente que gosta de carro de corrida, tem gente que gosta de barco, casa na praia. Eu nasci no campo, cresci com terra embaixo das unhas mexendo com as vacas e bezerros do meu pai, engordando meia dúzia de porquinhos lá na fazenda. A gente matava o pouquinho; na época que não tinha eletricidade, a gente tinha um barril e salgava a carne e colocava no barril e usava este porquinho durante seis meses, era fonte de proteína da família. Então, você cresce com isso e isso entra no sangue da gente, não? Para mim  o maior prazer que eu tenho talvez seja sair andando a pé mesmo no por do sol e ver o gado pastando. Eu andava a cavalo,  não ando mais porque tenho problema nas costas.

E como a gente tem visto o Brasil crescer tanto na eficiência na produção no campo aqui... como mudou o Brasil. Eu me lembro nos anos 80 a entressafra era um período em que muitos frigoríficos fechavam, não havia disponibilidade de carne, você fazia estocagem na época, tinha a Cobal ou talvez antes da Cobal eu não me lembro mais os nomes que depois virou o Conab hoje, eu vivi três ou quatro Conabs, se estocava carne e  o governo financiava estocagem de carne para  a entressafra. Veja como a genética melhorou tantos nestes últimos 25 anos , veja como as pastagens mudaram tanto que hoje o período de seca é muito menos ameaçador do que era. Na minha propriedade mesmo,  o meu gado começa a perder peso em julho, eu estou no cerrado. É um período muito menor de seca  que prejudica mesmo o peso dos animais. Então, você acaba participando de toda essa inovação no setor e tendo este setor no sangue como eu tenho e vendo a internacionalização da carne brasileira, esta participação no mercado internacional,  vendo o Brasil dos anos 80 e o Brasil dos anos 90 na sombra da Argentina. Comprava-se o produto Argentino e se não tivesse comprava-se o produto brasileiro com desconto, com até 20 % de desconto porque a qualidade era precificada como muito menor. Hoje em dia a gente vê um respeito muito grande pelo produto brasileiro, houve um prêmio de outros mercados para o produto brasileiro pelas características do produto às vezes superiores aos nossos concorrentes aqui na América Latina. Eu vi tudo isso acontecer. Tudo isso é uma coisa prazerosa, uma mudança radical de toda imagem do Brasil nesse setor. Participar disso é fascinante.

Revista JCM – Ouvi dizer que o senhor é um dos estrangeiros que mais briga pela carne brasileira no mundo e é uma briga que vem de anos, e uma briga cada vez mais ferrenha. O senhor aceita esse título?

Não saio por aí pensando em brigar com ninguém... talvez eu volte para a questão da paixão. Quando a gente vê uma situação aparentemente injusta, onde o comércio e, portanto, a economia do setor está sendo prejudicada por motivos inventados, por motivos artificiais a tendência natural de uma pessoa que é do setor é de procurar remover estes obstáculos artificiais. A briga não é pessoal, nem nada, a briga é – se a gente deve usar esta palavra -  o trabalho é no sentido de evitar que fatores externos, artificiais, criados prejudiquem tanto a carne brasileira. Temos tido um obstáculo atrás do outro nos últimos 20 anos. Inicialmente não havia cota para exportar para a Europa.  Depois nós conseguimos uma cota mínima de cinco mil toneladas. Depois, através de pressões diplomáticas internacionais conseguimos diminuir as tarifas e ampliar cotas e entrar naquele mercado, crescer bastante naquele mercado. Mas, como crescemos bastante, aí criou-se um outro obstáculo hoje em dia que o obstáculo da rastreabilidade    que existe, na minha opinião, fundamentalmente para frear os volumes de carne brasileira que podem acessar o mercado europeu. Não há nenhuma ameaçava a saúde animal ou humana nas exportações da carne brasileira. É uma injustiça que está sendo cometida e quando a gente vê uma injustiça, a tendência é procurar consertar a situação. Por isso que a gente vai para Rússia é a mesma coisa , é tão difícil abrir aquele mercado russo. O russo estava viciado em comprar carne européia subsidiada, era mais carne com osso. Para entramos naquele mercado, conseguimos uma cota;  era uma dificuldade muito grande. Então, você tem que ir com bastante energia para brigar por essas coisas. Para entrar no mercado chileno, eu me lembro, o mercado chileno é um mercado importante, apesar de ser um país pequeno tem pouca pecuária pela topografia do país. Mercado muito importante. 10 anos atrás o Brasil entrou naquele mercado.  Era tão difícil entrar naquele mercado. Eu fui lá. Na época, nós abrimos  um escritório lá,  fomos nos supermercados para vender o produto. Tem que fazer um esforço muito grande. Neste sentido, eu acho que participei ativamente sempre. Hoje, acho que o Brasil está sendo prejudicado tanto quanto foi na época em que nós iniciamos.  Temos restrições artificiais para a penetração em certos mercados. A questão da rastreabilidade é uma barreira artificial. E fora isto, tem as barreiras tarifárias.

Revista JCM – Usam argumentos sanitários para questões econômicas?

Sanitário seria se tivesse alguma prova de ter havido qualquer prejuízo sanitário em função do comércio. Não existe nenhuma prova. Absolutamente nada. As restrições do mercado europeu hoje são baseadas no fato de que, em função da vaca louca na Europa, criou-se um sistema de rastreabilidade na Europa para recuperar a confiança do consumidor europeu, que estava abalada e havia uma resistência em consumir o produto europeu. Então, criou-se uma legislação na Europa e como medida dita democrática aplicou-se a mesma exigência ao produto brasileiro. A medida foi criada para conquistar confiança do consumidor para consumir o produto europeu, porque ele não confiava mais no produto europeu em função da vaca louca. Nunca houve abalo de confiança no produto brasileiro e nunca houve vaca louca no Brasil. Então, não se justifica aplicar aqui a mesma legislação que se aplicou na Europa. Não há uma justificativa  jurídica e sanitária ou qualquer outra coisa. Portanto, eu acho isto uma barreira artificial que se criou e que gradativamente vai se contornando-a através de um sistema com o qual eu não concordo de ter ingerência na certificação de propriedades por parte dos estrangeiros baseada em medidas que foram criadas num outro continente para classificar uma propriedade como apta ou não a criar gado para o consumo naquela região. Esta autoridade tem que ser delegada ao governo local para ele determinar o que representa ou não ameaça em termos de saúde animal ou humana. Isso não acontece. Há uma ingerência que para mim é difícil de justificar.

Revista JCM – De qualquer maneira, o mercado brasileiro tem que se dobrar a essa ingerência para poder vender, tem que ter a certificação européia da fazenda, esse tipo de coisa. O senhor mesmo tem.

Eu mesmo tenho. Eu  me lembro de uma frase do Airton Sena, quando o carro dele não corria muito bem e ele ficava em segundo , terceiro lugar, ele falava: “Quem não tem cão, caça com gato”. É o caso do Brasil, quem não tem cão, caça com gato. Tem que conviver com essa deficiência e recuperar o mercado, certificar as propriedades de uma  maneira mais eficiente, e mais rápido possível para recuperar aquele mercado, porque isso vai refletir numa outra realidade tanto para pecuária quanto para o setor frigorífico no Brasil. A ausência das exportações para o mercado europeu é um dos motivos pelos quais o setor frigorífico e pecuário foi prejudicado nos últimos dois anos – 2008,2009. Parte da razão pelo qual o setor tem tido dificuldades é pelo fato que foi vedado o acesso ao mercado que era de importância fundamental para equilibrar o comércio de todos os diversos cortes que se produz dentro da carne bovina. Porque nós temos produto nobre que concorre com lagosta; nós temos produto   intermediário que concorre com carne suína talvez ou peixe. São cortes intermediários. E nós temos o produto mais popular como o hambúrguer, as carnes mais baratas que concorrem mais com o frango. Então, você tem uma gama grande de produtos de carne bovina e você precisa ter o melhor mercado para cada um deles. Você tem que rentabilizar o todo do boi através do acesso aos mercados mais importantes para cada categoria de produto que se produz daquele boi. Por isso a importância de uma concentração maior do mercado, porque ao concentrar você acaba mandando filé mignon para um mercado que paga hoje R$50,00 o quilo. Algo como R$ 40, R$ 50 o kg, deve ser o preço do filé mignon brasileiro. Mas como nós não temos  acesso àquele consumidor que pague aquele preço, nós vendemos o filé mignon por R$ 15 o kg a quem pode pagar esse preço. Mas, você imagina se tivesse acesso ao melhor consumidor de cada categoria de produto que você tem, você vai poder pagar um preço bem melhor pelo boi, você vai rentabilizar mais a pecuária e o teu pecuarista vai produzir um animal melhor ainda.
 
Revista JCM – Falávamos do mercado europeu, dessas dificuldades todas. Quanto do ano passado para cá caíram as vendas de carne para a União Européia?

Em torno de 80%, o que representa perdas como algo em torno de 159 mil toneladas e US$ 816 milhões. Nós exportamos um pouco no início de 2008, portanto, isso vai influenciar um pouco os números quando se compara 2008 a 2009. Mas se compararmos 2007 a 2009, acúmulo do primeiro semestre por exemplo, que a gente poderia fazer esse cálculo, vai ver que caiu 80% o volume de vendas.

Revista JCM – Qual é a perceptiva que o senhor vê daqui para frente? Parece que há uma dicotomia entre os Ministros da Fazenda e da Agricultura, da União Européia.  Quer dizer, o da Agricultura visando à reserva de mercado e o da Economia visando uma carne mais barata na mesa do consumidor europeu. Portanto, este mais parceiro, digamos, das exportações brasileiras. Quando esse jogo pode mudar para o Brasil ou se equilibrar mais já que há essa tendência também de haver a necessidade de carne mais barata para o consumidor final europeu?

É importante a gente lembrar um pouco que na Europa há uma briga antiga entre o homem do campo e o homem da cidade. O homem do campo consegue se organizar melhor do que o homem da cidade porque, normalmente, o homem do campo tem um foco muito grande que é a preservação da terra e da sua renda sobre a terra, e são pequenas as variedades de opções que têm. Grande parte é pecuária. Principalmente em alguns países como a França, como a Irlanda, por exemplo, são países que têm uma grande dependência da pecuária, portanto, todo o homem do campo está unido ao redor de um tema que é fácil de unir as pessoas. Na cidade você tem uma diversidade muito maior de interesses e é difícil de unir o consumidor. Então, há um certo desequilíbrio, na minha opinião, entre a força do lobby de uma minoria do campo contra o consumidor. O consumidor é mal representado pela diversidade das atividades do consumidor. Uma minoria, portanto, tem influenciado e prejudicado a economia dos países por conseguir se unir e fazer tanto barulho...

Revista JCM – O lobby ruralista é forte não só na Europa, como no mundo todo, inclusive no Brasil.

Creio que quando se compara o Brasil a Europa, proporcionalmente o lobby ruralista é muito mais forte na Irlanda ou na Europa de modo geral, mas particularmente na Irlanda com relação ao Brasil. É muito mais efetivo, consegue-se nomear o Ministro da Agricultura, consegue-se modificar a opinião pública de uma maneira muito mais radical do que aqui. Você tem esse desequilíbrio na Europa por uma questão que eu acabei de falar. Nessas dificuldades financeiras, o lobby não funciona tão bem. Então, nós estamos tendo um pouco mais debate sobre as reais vantagens sobre as restrições que foram postas aos produtos importados, particularmente ao produto brasileiro quando diz respeito à carne bovina. A tendência é de ter um equilíbrio um pouco maior de forças internas na Europa. A tendência é ter os ministros da economia, os ministros de consumo, tendo uma voz mais ativa e tendo uma influência maior sobre este comércio. Isso é positivo para o Brasil. Mas esse é um processo lento, não vamos ver nada mudar radicalmente de uma hora para a outra, porque nós estamos num processo de certificar propriedades brasileiras que não vai disparar. Vai continuar a crescer e vamos chegar num volume de propriedades razoáveis para termos um comércio condizente a partir do final do ano que vem, provavelmente. Mas, enquanto isso nós temos uma outra batalha a vencer que foi perdida que é recuperar a imagem do nosso produto. Não adianta você ter acesso ao mercado se a sua imagem está desgastada. A imagem do produto brasileiro foi desgastada em todo esse episodio e não foi pouco. Novamente, foi desgastada ao meu ver de uma maneira injusta. Então, você tem que... Inicialmente, o nosso produto vai para a Europa, vai para todos os canais aonde a origem do produto não é identificado, alguns vão para restaurantes, fábricas, vai para cozinhas industriais, vai para hospitais, exércitos e entidades, onde a origem do produto não é coisa primordial. Mas o produto não vai para a prateleira do supermercado onde se vende a maioria das carnes e das proteínas. As pessoas consomem a maior parte em casa e não fora de casa. Então, a segunda batalha nossa, depois de termos aprovados um número condizente de propriedades, vai ser a de recuperar a imagem do produto de tal maneira que nós vamos convencer os varejistas, o setor de varejo a colocar o produto brasileiro de volta na prateleira. Isso é que vai representar volume e isso nós temos que pensar em certificar, garantir, autenticar, auditar o nosso produto e levar certificação, fazer marketing, levar as autoridades, um tanto de medidas que terão que ser tomadas em conjunto - o setor público e privado, incluindo o pecuarista, frigorífico, exportador, governo, agências de promoção e tudo mais. Temos que pensar que isso é algo... A partir do momento que nós tivermos um número maior de propriedades certificadas e condições de exportar um volume maior, nós teremos que começar a tarefa de recuperação de imagem do produto.

Revista JCM – Essa tarefa passa pela a implantação de um rastreamento?

A rastreabilidade faz parte da certificação das propriedades que dá acesso ao mercado. A rastreabilidade também pode servir como garantia, como certificação para recuperar a confiança do consumidor no produto. A rastreabilidade é uma arma poderosa favorável ao Brasil se bem usada, primeiro para certificar as propriedades e cumprir com a legislação, e depois como instrumento para aumentar a confiança no produto. Tem dupla utilidade a rastreabilidade; primeiro é uma exigência legal e depois é um instrumento de recuperação da imagem.

Revista JCM – O senhor fala de dois movimentos, primeiro esse movimento de garantir a idoneidade do produto. O segundo é em termos de imagem, o que tecnicamente precisa ser feito? Ou é mais uma questão de imagem mesmo?

É uma questão de imagem. A imagem foi desgastada com argumentos tolos.

Revista JCM – Como reverte essa questão?

Através de medidas de recuperação da confiança do consumidor...

Revista JCM – Que tipo de medida?

Certificações. Cada vez mais tem que certificar o produto, tem que garantir a questão da rastreabilidade, a questão da qualidade, a questão da preservação do meio ambiente e da sustentabilidade do ambiente onde essa carne foi produzida, isso é algo muito importante a nível global. A Europa tem a vanguarda nessa questão – a sustentabilidade. A sustentabilidade pode ser vista como um problema  ou como uma oportunidade. Eu vejo como uma oportunidade em fazer um bom trabalho na questão da garantia da sua matéria-prima vindo do campo de uma maneira sustentável. Para isso você faz uma série de medidas, você visita propriedades, vai aumentando essas exigências não por exigir, mas por ter a necessidade de ter essas certificações para satisfazer o consumidor. Então, você vai trazendo junto os produtores para chegar a um nível de sustentabilidade que isso gera confiança no consumidor. Aí você tem que expor isso, comunicar isso para o consumidor.

Revista JCM – O primeiro passo é toda esta questão: certificação, sustentabilidade, rastreamento. O segundo é a comunicação. Tornar isto mais claro. Mas, nós temos  então um dever de casa a fazer?

Seguramente. Tudo relacionado com o campo no Brasil é uma obra em andamento, não é uma obra acabada, tem excessos e faltas. As sobras têm que ser ajustadas. Então, nós temos que ajustar a questão da sustentabilidade de maneira que seja mais clara e que seja mais evidente o ganho que tem em fazer um trabalho real sustentável em cada propriedade. Cada proprietário tem que sentir isso. Isso é uma obra em andamento no Brasil, não vai resolver nos próximos 12 ou 24 meses. Isso é um trabalho para fazer ao longo de uma geração, ao longo de anos.

Revista JCM – É um trabalho de  mudança de mentalidade?

Eu acredito que nós temos experiências positivas que vão servir de base para espalhar uma ideia real de quanto isso é valioso. Eu acredito que daqui cinco anos nós vamos sentar e conversar sobre essas questões de uma maneira muito mais definida e muito mais madura do que hoje. Hoje nós estamos numa fase de transformação.

Revista JCM – E com os ânimos bastante acirrados...

Sim. Às vezes, tem que ter um pouco de exagero por um outro lado para achar o caminho certo.

Revista JCM – Um ponto de equilíbrio...

Hoje os ânimos estão exaltados demais, existem levantamentos e relatórios de ONG que exageram, que generalizam e isso prejudica os comportados, as boas empresas e os bons produtores. Em meio dessa época, isso é um castigo, que talvez a gente tenha que conviver com isso durante um período, até conscientizar todo mundo. Neste momento, há um exagero que está prejudicando os bons produtores.

Revista JCM – O pecuarista que é o nosso leitor mor, ele hoje está debaixo de um fogo cruzado nacional, internacional, de ONG, de governo, de mídia. Que palavras o senhor tem para esse pecuarista que se vê praticamente acuado diante de tanto tiroteio?

Eu não o vejo tão acuado assim. Eu não concordo com a análise de que ele esteja tão acuado. Eu acho que o pecuarista precisa ter a consciência de que ele tem que andar junto com a cadeia como um todo. O pecuarista que não está andando com a cadeia se sente um pouco acuado porque ele não modernizou a sua propriedade, ou ele não modernizou seus pensamentos, ele não introduziu os mecanismos de gerenciamento que permitisse a ele andar junto com o setor. Ele está acuado, mas ele está acuado por um motivo mais focado... Por motivos subjetivos dele. Toda a cadeia sofre a mesma pressão, não é um elo da cadeia que sofre. Atualmente na questão do comércio internacional e em alguns casos do comércio doméstico também, a cadeia como um todo está sendo prejudicada. Mas está sendo prejudicada obviamente por alguma razão, fundamentada ou não fundamentada. Isto é o julgamento que temos que fazer: o quanto é fundamentado esse julgamento negativo que está sendo feito sobre a cadeia como um todo. Eu acredito que há um exagero em termos de julgar negativamente a cadeia como um todo. Nós vamos ter que conviver com isso e corrigir isso através de um trabalho real em cada uma das propriedades, em cada uma das empresas que fazem parte dessa cadeia como um todo. Enquanto isso nós estamos com saldo negativo e bastante negativo. Eu não tenho dúvida quanto a isso. Outra questão que talvez eu sinto um pouco na sua pergunta é a relação de um elo da cadeia com outro elo da cadeia. Voltando para a minha juventude, isso é algo com que eu convivo, pecuarista e  frigorífico. Eu me lembro que quando tinha cinco anos da idade, meu pai tinha uma vaca para vender e nós não tínhamos trator, não tínhamos nada, nós colocamos a vaca na carroça com a égua e fomos num mercado local para vender essa vaca. A caminho do mercado tinha os compradores de gado que paravam a gente numa esquina e falavam... Era 12 km com a carroça, uma manhã inteira para fazer a viagem. Então, paravam “eu compro sua vaca por tanto”, fomos recusando as ofertas ao longo do caminho, até finalmente chegar na feira e vendermos por fim às três horas da tarde a vaca 10% mais barato do que a melhor oferta que nós recebemos ao longo da estrada. Passamos o dia inteiro nessa história e ainda o meu pai bebeu outros 10% do valor da vaca antes de voltar para casa à noite. Eu convivo com isso desde os cinco anos de idade e não mudou muito. Eu acho que os motivos pelos quais existem tantas dificuldades é porque é um processo complexo pegar um boi gordo, que é um animal com quem a pessoa convive e tem uma certa relação, que é uma unidade, um produto único, vender para alguém que desmonta esse animal e vende 100 ou mais do que 100  produtos diversificados, para até 100 clientes diferentes. Isso é um processo complexo. É difícil para entender para quem está dentro e é muito mais difícil de entender para quem está fora. Vai sempre gerar desconfiança, sempre vai ter pecuarista querendo entrar na cadeia do frigorífico porque ele acha que há uma injustiça na transferência daquele bem para o próximo elo da cadeia. Eu tenho visto isso ao longo dos últimos 25 anos, geralmente, não há migração de um elo da cadeia para o outro elo da cadeia. Geralmente, o pecuarista que resolve construir frigorífico para matar o boi dele e dos vizinhos, ele não tem escala, não tem experiência, ele sofre com isso. É da natureza do negócio ter um certo atrito, mas é obrigação dos empresários e das grandes empresas do setor procurar cada vez mais desfazer este posicionamento um pouco mais. Isso nós temos que pensar em evitar isso. Porque o setor frigorífico depende do pecuarista e o pecuarista também depende do frigorífico. Se tiver um pecuarista saudável, o frigorífico é garantido em termos de matéria-prima, que é a essencial do negócio dele. E se o frigorífico for saudável, pagar em dia e estiver galgando novos mercados, abrindo novas frentes de produtos, inevitavelmente, pelo menos parte dessa premiação toda teria que ser repassado para a cadeia, para manter a cadeia incentivada a produzir cada vez mais. Isso nós temos que ver naturalmente, que um ajuda ao outro e que um é essencial ao outro. São os bons empresários, são os programas de premiação de qualidade, são as parcerias onde o frigorífico consegue ajudar o pecuarista em uma deficiência que ele tem financeira ou qualquer que seja, para ele melhorar a sua produtividade no campo. São todas estas medidas. Eu acredito que nós estamos avançando bastante nesse sentido. Talvez pela dor de ter tido algumas empresas que não conseguiram sobreviver nesse período de dificuldade é que se destacaram aquelas que sobreviveram. No campo eu sinto também uma certa mudança de geração. Eu vejo cada vez mais propriedades sendo gerenciadas por pessoas mais jovens, uma nova geração entrando e utilizando mais tecnologia, desde previsão do tempo até controle genético, controle de pesagem, pastagem, suprimentos, confinamento, toda essa cadeia que é muito complexa. Por isso também o frigorífico não deve pretender vir ao campo e ser tão eficiente quanto a pessoa que está no campo a vida inteira e que vai fazendo todas as experiências até chegar num equilíbrio de eficiência em termos de alimentação, de engorda, de eficiência, de custo do que é produzido no campo. Acho que a gente avançou bastante nos últimos anos e talvez  um pouco pela dor.
 
Revista JCM – Há uma característica comportamental também além do sangue jovem que é o sangue feminino no campo. Era um setor absolutamente masculino e hoje há uma presença feminina no negócio bastante significativa de veterinárias, de técnicas. Não sei em que medida essa visão feminina muda, mas é curioso num universo tão masculino, hoje ter essa presença toda feminina. O senhor sente isso?

A minha esposa é quem administra a nossa propriedade. Ela sabe muito mais sobre ganho de peso do que eu, sobre dieta de grãos, sobre suplementos, sobre sal mineralizado. Ela vai falar com muito mais detalhes sobre essas questões do que eu. Dentro de casa eu tenho essa experiência.

Revista JCM – E que contribuição o olhar feminino traz para isso? É diferenciado?

Mulher sempre presta muita atenção nos detalhes. O nosso negócio tanto a nível de frigorífico quanto a nível de pecuária, é um negócio de detalhes. Nós falamos uma coisa em inglês que eu repito muito para a nossa equipe que é “The devil is in the detail”; traduzindo : “o diabo está no detalhe”. Então, vai atrás do detalhe e tira o diabo fora, porque se você for atrás do detalhe o grande negócio vai funcionar bem. É a mesma coisa no campo. No frigorífico, se nós nos preocuparmos com o rendimento de cada músculo, em minimizar a quantia de carne que fica no osso, em pegar todos os miúdos dos produtos e aproveitá-los bem, desde o tendão de Aquiles do animal até a orelha, até o pelo da orelha do animal, se nós nos preocuparmos em extrair bem todos esses produtos, prepará-los bem, embalá-los bem, e buscar um bom mercado para esses produtos, a soma desses detalhes vai representar talvez R$ 5,00 por boi, R$ 10,00 por boi. É pouco, é detalhe, mas R$ 10,00 por boi para quem mata 20 mil bois por dia é uma fortuna. No fim do ano é uma fortuna. É o detalhe. No campo você pode dizer a mesma coisa, é fazendo rodízio de pastagem na hora certa, não deixar o pasto passar do momento que o gado deve entrar no pasto, tampouco deixar o gado judiar do pasto de tal maneira que vai demorar mais tempo para o pasto se recuperar. Então, você tem que definir bem os ciclos, quantos animais por hectare, quanto tempo, quanto descanso até voltar os animais, quanto suplemento é eficiente para aquele gado naquela fase de crescimento, todos esses detalhes hoje são muito importantes.

Revista JCM – Eu conheço o ditado de outra forma. Não precisa nem tirar o diabo, é Deus que está nos detalhes.

Como a gente está vendo o detalhe de uma maneira crítica, a gente está criticando quem não presta atenção no detalhe. Quem presta atenção no detalhe a gente fala que é Deus. Quem cuida do detalhe, Deus está no detalhe. Quem não cuida é potencialmente o diabo.

Revista JCM – Com que frequência o senhor vai à fazenda?

Média, uma vez por mês.

Revista JCM – Sua mulher está lá direto?

Passa pelo menos uma semana por mês, às vezes 10 dias. Eu viajo muito também.

Revista JCM – O furacão JBS causa espanto: a empresa pulou de um faturamento de dois para cerca de 30 bilhões de dólares em três anos com a aquisição de cinco grandes  empresas, entre elas a americana Swift. Isso está em Exame, outubro do ano passado.

O faturamento do ano passado está aqui. O faturamento foi de 30 bilhões de reais, aproximadamente, não de dólares.

Revista JCM – E qual a previsão para 2009 ?

Como nós temos a produção em países tão diversificados, a variação cambial sobre todas essas moedas é algo que é difícil de calcular, mas algo entre R$20 e R$40 bilhões. Eu sei que esta é uma faixa grande , mas é mais para R$40 do que para R$ 30. Mas como a gente não deu ao mercado nenhum número oficial, eu não posso dar agora de uma maneira particular. Ao mercado nós não passamos nenhuma posição oficial da empresa.  Vem crescendo. A julgar pelo primeiro trimestre foi de R$9 bilhões e pouco, multiplicar isso por quatro dá R$36. Tem a sazonalidade, talvez seja um pouco mais do que isso. O primeiro trimestre já é público.

Revista JCM – A pergunta é mais no sentido de que causa espanto a qualquer pessoa um crescimento dessa magnitude – de dois para 30 bilhões de reais. O percentual de crescimento é o mesmo em dólares ou real: 1.100%

Eu analiso da seguinte maneira: quem conhece bem a empresa, quem conhece os proprietários da empresa, quem conhece os fundadores da empresa que são os administradores da empresa até hoje, sabe o quanto eles são arrojados na hora que devem ser arrojados, conservadores na hora que devem ser conservadores. Nós tivemos, na nossa opinião, na opinião dos administradores, que são pessoas com quem eu convivo há muitos anos, por isso conheço bastante bem, nós tivemos uma oportunidade única no mundo nos últimos dois anos. Nós, uma empresa brasileira, com economia forte aqui, com moeda valorizada, dentro de um setor que é um setor fundamentalmente muito bom, mas que passou por um período ruim, onde houve uma desvalorização do patrimônio do setor. Então, foi uma conjugação de fatores única, nós não vamos viver isso de novo. Eu acho que o valor do JBS, o valor dos seus administradores e de seus acionistas principais, foi enxergar com antecedência essa janela de oportunidade e utilizá-la. Não foi nada impensado, nada impulsivo, foi algo que foi feito com bastante tranquilidade e planejamento, numa realidade que nós vimos começo, meio e fim, em tudo que foi feito.

Revista JCM – Quando a empresa abriu  o capital, esperava esse resultado?

Abertura de capital foi feita num ambiente de melhora de mercado brasileiro. O planejamento da abertura de capital foi feito no ano de 2006, nós abrimos no início de 2007.

Nós começamos a entrar num ciclo de mudança vertical no ano de 2007, houve uma mudança radical, as exportações brasileiras começaram a ser menos competitivas, o real valorizou mais do que qualquer um esperava, o setor nos Estados Unidos estava no pior momento da crise gerada por causa da vaca louca nos Estados Unidos  no final de 2003. O setor teve prejuízo em 2004, 2005, 2006 e estava tentando se erguer de uma crise de três anos. O patrimônio do setor nos Estados Unidos estava altamente desvalorizado, na nossa visão. Tudo isso surgiu em 2007. Então, não devemos ver com espanto o que aconteceu. Foi bem planejado.

Revista JCM – Mas, foi planejado crescer 1.100%?

Não se mede o quanto você vai crescer, você mede tamanho da oportunidade e a condição da empresa de administrar a oportunidade ou não. Então, tem algo que a gente diz também que é válido aqui: “receita é para vaidade, lucro é para sanidade”. Nós nunca buscamos receita, nunca buscamos uma explosão do faturamento por si só, nós pensamos “aqui existe uma oportunidade para nós entrarmos no mercado fundamental – o mercado americano que estou me referindo - para o equilíbrio global da carne bovina”. A nossa moeda está forte, eu  posso captar dinheiro no Brasil, as fábricas estão baratas nos Estados Unidos, é agora ou nunca, vamos fazer agora. Vamos tomar as medidas que sempre queríamos tomar de diversificação da produção, para evitar que haja uma crise na empresa por falta da diversidade em termos produtivos. Quais as crises a gente viu? A gente viu a crise da vaca louca, nós vimos a crise da febre aftosa no Brasil diversas vezes, que gerou uma mudança radical no resultado da empresa, se estava trabalhando com uma margem de 10% e de repente o seu maior mercado foi tirado por uma questão de saúde animal, e a sua lucratividade caiu pela metade. Como você mitiga esse risco? Você diversifica a sua base de produção, porque no caso o que é prejuízo para um, acaba sendo oportunidade para o outro. Então, você diversifica a sua base de produção para sempre ter uma oportunidade quando tem uma adversidade. Basicamente foi isso que a JBS fez de uma maneira consciente, indo para as quatro principais bases produtivas  do mundo em termos de potencial de excedente de produção para substituir o mercado cada vez mais escasso em termos de proteínas. Estados Unidos, Brasil e Austrália, Argentina - esses quatro países, onde uma diversidade para um, uma oportunidade para outro. Foi pensando estrategicamente assim: criar essa plataforma global de produção para um mundo cuja população está crescendo, onde a questão da proteína vai ser fundamental para o crescimento dessa população. Nós achávamos importante aproveitar uma janela de oportunidade para diversificar a nossa produção e ter essa posição estratégica para décadas de desafio. Não é para 2009/2010, é para as próximas décadas que estamos pensando. Esta empresa existe desde 1953 – aliás, o ano em que eu nasci. E espero que vá existir muitos anos mais do que eu. O pensamento nosso é de dar uma continuidade e,  desde que tenha os dirigentes adequado, de continuar por muitas e muitas décadas. Eu acho que isto é parte da força que nos leva a chegar cedo aqui todo dia de manhã e de criar algo que tenha perenidade, que tem continuidade. Você tem que aproveitar estas oportunidades sem pensar na grandeza ou na multiplicação do faturamento de um ano para o outro. É uma oportunidade real ...... Conseguimos administrar esta oportunidade. Temos gente que é fundamental, temos estrutura de capital, são os dois fatores  essenciais. E talvez o terceiro seja coragem. Você tem que unir essas coisas porque não é todo dia que você tem essas oportunidades. Talvez explique um pouco mais .....   o que aconteceu na JBS nos últimos dois anos  Nós vimos essa oportunidade e nós achamos que as oportunidades vão surgir em função dessa crise financeira do ano passado. Este ciclo ainda não acabou, nós estamos ainda fazendo ajustes muito grandes no setor de proteínas a nível global e a nível Brasil também. Então, não acabou ainda esse ajuste.

Revista JCM – O senhor falou naquele ditado “receita é para vaidade e lucro para sanidade”. No momento atual, feita toda esta movimentação, compra de cinco empresas e esse crescimento todo, a empresa não se tornou menos eficiente? As margens dela não diminuíram? Isso era esperado?

Primeiro numa fase de crescimento vai haver prejuízos de margem até alcançar o nível de eficiência onde se recupera a margem de novo. Numa mudança de uma fase para a outra, você não vai manter a mesma rentabilidade necessariamente. Mas a ideia é voltar a ter esta rentabilidade quando se completa esse ciclo. Obviamente margens não são constantes numa fase de mudança como essa. Margens também não são iguais mundo afora. 3% a 4% de margem nos Estados Unidos em termos de volume, em termos de utilização de capital de giro, representa algo como 10% no Brasil. É uma outra realidade, são outros fundamentos, outros ciclos nos Estados Unidos que têm uma constância muito maior. Então, você quer ter 4 ou 5% constante  de um faturamento muito grande, ou você quer ter o risco de volatilidade muito maior com um faturamento inferior. Há possibilidade de ter margens altas, mas também há possibilidade de ter margens baixas e não ter grande perspectiva de crescimento. Você tem que juntar todas essas questões quando da internacionalização das empresas. Tem que pegar os parâmetros e as culturas  do setor em cada um dos mercados onde você está entrando e uni-los para criar uma imagem consolidada. É isso que a JBS está fazendo.

Revista JCM – Que ameaça representa para a JBS a possível união da Marfrig com a Bertin?

Isso não é ameaça, é uma oportunidade, novamente. Voltamos para a questão da necessidade de termos um setor forte, um setor mais concentrado, trabalhando junto com o governo para conquistar as grandes batalhas que estão fora do setor, não estão dentro do setor.

Vocês torcem por isso? Vocês aplaudem?

Nós torcemos por um setor organizado, unificado, trabalhando junto com o governo. Necessariamente isso implica numa certa concentração. Não é que torcemos, nós trabalhamos para ter um setor que é visto como um setor modelo, que trabalha unificado para resolver as adversidades do setor junto com o governo. E sempre preocupado com a cadeia produtiva. A dependência do setor frigorífico em relação ao pecuarista é muito maior do que em outras cadeias, em outros produtos. Você tem, às vezes, a possibilidade de importar matéria-prima. O setor frigorífico depende do pecuarista, tem que ser regional. Tem que ser numa distância factível da unidade produtiva  para viabilizar aquela unidade produtiva. Há uma relação de dependência mútua muito grande.

Revista JCM – Eu vou pular de um assunto desse para um outro totalmente diferente porque o nosso tempo está esgotando e eu não quero deixar de falar de determinadas coisas. Esse assunto está bem tratado. Eu queria falar da carne orgânica. Eu vi que vocês têm e no momento atual é um assunto muito em pauta, o alimento saudável. Eu queria saber um pouquinho sobre essa realidade da carne orgânica, desde quando vocês têm? Qual é a perspectiva de mercado para isso? É uma carne vendida no mercado interno e externo também? Queria saber um pouquinho sobre a carne orgânica.

Nós vemos o nosso negócio em grande parte como commoditie, como um produto escala,  tem que ter escala, tem que ter custo baixo, porque a vasta maioria de consumidores quer isso. Então, não é que eu quero fazer alguma coisa porque é bonito. Eu sou condizente com o mercado. Se o mercado quer escala, produtos baratos, preciso organizar o meu negócio e motivar a cadeia para produzir esse produto. Mas têm diversos mercados interessantes, mercados que terão que ser atendidos por alguém e são mercados importantes. Então, nós temos que pensar o quanto podemos ser eficientes em atender a esses mercados. A Europa é um mercado que não vou dizer de nicho, mas um mercado especial. Você tem que incentivar o pecuarista, você tem que informar o pecuarista que deve aprovar a propriedade dele, você tem que fazer uma parte separada para atender aquele mercado, você produz produtos determinados para aquele cliente. Esse é um mercado que eu não vou dizer de nicho, mas um mercado específico para o qual   você tem que tomar certas medidas. Produtos industrializados são outros mercados, precisam de uma carne mais magra, essas coisas todas. E carne orgânica é um outro mercado respeitável. Nós temos um número razoavelmente grande de pecuaristas no Brasil que adequaram as suas propriedades às exigências das federações  internacionais da agricultura orgânica.

Como no Brasil criamos os animais em pasto, em grande parte esse é um meio orgânico ou quase orgânico; só não é certificado como orgânico. Então, para transformar a propriedade em orgânica é mais uma questão de mentalidade do proprietário do que o investimento em si. Se o proprietário tiver a mentalidade orgânica ou interesse no mercado de nicho, o investimento não é muito grande. Obviamente tem que ter alguém que abrace a causa para levar esse produto ao consumidor. Nós abraçamos essa causa.

Revista JCM – Desde quando?

Faz cinco ou seis anos já. Nós criamos uma marca e abrimos espaços nos supermercados, nos centros de consumos mais sofisticados e esse projeto tem tido muito êxito no Brasil .

Revista JCM – Qual é a marca?

Organic Beef Friboi, tem o logotipo com a cabeça de boi verde.  Então, nós entramos no mercado e nós somos os únicos... Talvez tenha alguma participação marginal de outros produtores. É um mercado que nós consolidamos e nós fazemos algumas exportações. Não temos tanta participação no mercado internacional porque temos conseguido desenvolver um mercado doméstico condizente com o volume disponível de matéria-prima. Novamente, é algo que o pecuarista é motivado a produzir este produto. Por isso ele produz. Se não ele não vai fazer o investimento. Nós somos motivados também porque o consumidor paga um preço diferenciado por esse produto e esse preço diferenciado é dividido dentro da cadeia.

Revista JCM – Que parcela essa marca representa no universo de vocês?

É mínima. A linha orgânica representa em torno de 0,5% do faturamento nacional da empresa (aproximadamente R$900 mil por mês). Para 2009, a perspectiva de crescimento é de 20%. É algo realmente de nicho. É muito pouco em relação ao faturamento total da empresa no Brasil e mais insignificante em relação ao faturamento global, mas é algo que tem a sua importância dentro do segmento.

Não é um nicho que vá crescer muito no Brasil particularmente numa época de dificuldade econômica. Num mercado de grande liquidez e muito aumento da renda, você vai ver este mercado crescer. Nós estamos numa fase ainda de crise global e doméstica também, você não vai ver muito crescimento nesse mercado, a não ser que a gente tenha um período de bem estar financeiro mais prolongado.

Revista JCM – Nossa última questão: é certo as redes de supermercado suspenderem a compra de carne de área desmatada da Amazônia?

Qualquer coisa que seja irregular tem que ser corrigida. Novamente tem que ser corrigida ou voluntariamente ou como a gente falou anteriormente na dor. Se há uma irregularidade, essa irregularidade tem que ser ajustada. Então, é justo corrigir essas irregularidades quaisquer que sejam. Eu acredito que há um pouco de marketing em tudo isso, por isso que nós temos que separar um pouco a essência do marketing. Mas, inevitavelmente, novamente temos que voltar para aquele ponto: nosso negócio depende de um campo saudável e de uma imagem boa para o campo de modo geral, não somente no Brasil, mas  no mundo. Então, se há uma área nebulosa, se há uma irregularidade aparente ou real, isso tem que ser corrigido. Nós somos a favor de resolver essa questão de uma maneira sustentável para todos para que não haja depois um incentivo para o pecuarista ou dono da terra voltar a desmatar. Ele tem que ser remunerado de uma maneira condizente para ele preservar a parcela de mata que é exigida e para ele ter uma rentabilidade no resto da propriedade de modo que ele não tenha nenhuma motivação financeira para inverter esse  equilibro. Isso é importante. Envolve o consumidor e é através do consumidor hoje que nós estamos vendo esse movimento. O consumidor é  conscientizado pelas ONGs, pelas  entidades não governamentais que divulgam as informações,  o consumidor por sua vez sensibiliza o varejo e o varejo sensibiliza quem processa o boi, e quem processa o boi tem que sensibilizar o produtor no campo. Então, nós estamos tendo este movimento. E nós temos que chegar a um ponto em que consumidor não se preocupe com isso. Nós temos que resolver essa questão. O papel do governo é fundamental. Nós temos que ter legislação clara, sem dar margem à dúvida, implementá-la, fiscalizá-la. Acho que aí está uma lição de casa a ser feita. 

Revista JCM –  A legislação clara é fundamental?

Acredito que seja. Não basta ter uma legislação clara. É preciso promover a implementação daquela legislação clara. Nós temos que pensar e lembrar a toda hora que todo mundo vai preservar a floresta se tiver um incentivo para fazer isto. Temos que criar incentivos, temos que explicar para o dono da terra que aquela árvore é valiosa e que ele vai ser remunerado pela preservação daquela árvore. Nós não vamos conseguir nada na imposição, temos que fazer no equilíbrio, que é um equilíbrio financeiro e equilíbrio da natureza também. Esta é a minha opinião pessoal e a opinião da empresa. Isso é algo que nós desejamos. Nós como empresa tomamos medidas para evitar que haja irregularidade. Nós não fazemos negócios com proprietários da terra que tiverem irregularidade comprovada. Nós temos programas de incentivos, é mais pró-ativo do que reativo. Nós temos um mapeamento que nos permite saber o quanto nosso negócio causa de dano na natureza para nós podermos diminuir esse dano. Nós estamos fazendo um trabalho dentro dos padrões da Bolsa e Valores e sermos categorizados como uma empresa sustentável, e no nosso setor é algo inédito, algo mais difícil do que você estar produzindo Danone ou alguma coisa assim. Nós estamos muito próximo à natureza e sermos classificados como uma empresa sustentável é  uma meta que nós vamos alcançar e não é fácil.

Revista JCM – Quanto tempo demora para alcançar?

Nós esperamos este ano; até o final deste ano alcançar este índice de  sustentabilidade da Bovespa. É algo que estamos desejando fazer ainda este ano. Na verdade chama-se Índice de Sustentabilidade Empresarial.

Revista JCM – O senhor quer colocar algum tipo de dado ou informação que nós não abordamos aqui e que seria importante estar frisando?

Quando eu era mais jovem e falávamos dessas questões, eu criticava muito  mais o governo. Eu vou deixar de fazer isso hoje, mas eu estou tendo que me esforçar para deixar de criticar a falta de união. Isso é algo que eu vejo como estrangeiro no Brasil. Já sou brasileiro ... Mas, eu cresci num ambiente onde uma causa comum a uma região do país era abraçado por todos e não havia nenhum tipo de inimigo interno ou alguém torcendo contra. Eu acho que nós no Brasil precisamos nos unir mais como uma nação para defender as causas do Brasil. Às vezes o maior defensor do movimento que está exagerando sobre a imagem do Brasil é um brasileiro. Eu não quero dar o nome aos bois – desculpe usar esta expressão. Eu tenho participado de debates lá na ESALQ, no Canal Rural, de vez em quando, neste tipo de coisa e o único argumento contra o qual não tenho defesa é a falta de união. O inimigo interno, como eu chamo para ser mais preciso. Esta é uma questão para o qual temos que ter cada vez mais consciência. Nós temos que nos unir em torno das nossas causas: seja pela causa do campo, seja pela causa do frigorífico, seja pela causa do país. Em muitas questões a chave do setor frigorífico ou de setor pecuário é termos um país mais unido ao redor de uma causa para ter acesso aos mercados. Isso serve para etanol, para soja, para carne...

Revista JCM – Na entrevista do Roberto Rodrigues para a Revista da JC Maschietto anterior, ele comemorava o fato do governo assumir o agronegócio como uma questão de estado e não só de um único ministério.

Eu acabei dizendo exatamente a mesma coisa de outra maneira: em conclamar a união ao redor da causa do campo por parte do governo como um todo, desde o Ministério do Meio Ambiente até o Ministro da Indústria e Comércio até Ministro da Agricultura e até o presidente.



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