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Sustentabilidade da Pecuária de Corte1

Geraldo B. Martha Jr.2

Artigo publicado na Revista JC Maschietto no 08, setembro/2010
Na próxima década, a expansão da produção agropecuária brasileira deverá ser da ordem de 40%. Paralelamente, nos próximos anos, devem ganhar envergadura pressões sociais, no país e no exterior, para que sejam incorporados critérios de sustentabilidade à produção agrícola.

O conceito e a importância do desenvolvimento sustentável passaram a ser propagados de modo mais intenso e frequente a partir do final da década de 80, ganhando musculatura nos últimos 10 anos. A sustentabilidade seria alcançada quando as dimensões técnica, econômica, social e ambiental relacionadas à produção agropecuária fossem atendidas. Estas dimensões têm forte interdependência e deveriam, em uma situação ideal, ser contempladas simultaneamente.

Associar a proposta de sustentabilidade a apenas uma dimensão, como a econômica ou a ambiental, é, portanto, critério insuficiente e equivocado, pois não reflete seu aspecto múltiplo. Desse modo, os modelos de produção agropecuários devem buscar estratégias “ganha-ganha”, isto é, ganhos simultâneos em todas as dimensões da sustentabilidade. Entretanto, quando esta condição não for possível, passam a ser desejáveis estratégias que resultem em “pequena perda-grande ganho”, na qual o favorecimento de uma dimensão da sustentabilidade, em detrimento de outra, variará conforme a situação.

Tecnologias
A dimensão técnica diz respeito à disponibilidade de tecnologias que possam ser adotadas pelos produtores. A possibilidade de produção será então determinada pelas tecnologias e pelos recursos/fatores de produção disponíveis.

A geração de tecnologias é um problema da pesquisa. Nesse aspecto, a pesquisa agropecuária no país, particularmente a partir da década de 1970, tem reconhecidamente avançado a passos largos na geração de tecnologias e de sistemas de produção capazes de atender aos mais variados critérios, sejam eles econômicos, sociais ou ambientais. Para o futuro, os resultados projetados para a pesquisa agropecuária brasileira são igualmente animadores.

A evolução do agronegócio brasileiro, nas últimas décadas, atesta que a difusão de tecnologia tem sido muito rápida todas as vezes em que a relação de preços foi favorável. Em vista da grande demanda novas tecnologias serão adotadas nas situações em que forem competitivas com as alternativas existentes e os preços relativos forem favoráveis.

Queda de preços ao consumidor
Por uma perspectiva sócio-econômica, a pecuária contribui positivamente para a geração de emprego e renda no país. O setor também é importante no cenário nacional, pois abriga contingente expressivo de trabalhadores de menor qualificação, quando para estes as oportunidades de emprego são reduzidas nos setores que requerem maior qualificação profissional.

No período de 1997 a 2009 o setor de carne bovina apresentou saldo acumulado na balança comercial de R$ 27,7 bilhões3. Estes superávits contribuíram para a estabilidade macroeconômica do país e financiaram importantes programas do governo.

Ademais, o fato de a oferta de carnes no país ter consistentemente crescido a taxas mais elevadas do que a demanda possibilitou redução dos preços reais da carne pagos pela população brasileira. Pelos dados do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE), para a cidade de São Paulo, calcula-se que o item carne, em junho de 2010, valia cerca de 30% do valor pago em novembro de 1973. Essa queda de preços tornou um alimento de elevado valor biológico acessível aos mais pobres, atenuou pressões inflacionárias e, pelo efeito-renda da demanda, em especial na população de renda mais baixa, o que dinamizou outros setores da economia.

Economia de terra e emissões de gases de efeito estufa
O ecossistema de pastagens provê importantes serviços ambientais para a sociedade, dentre os quais o aumento na matéria orgânica do solo, determinando maior taxa de infiltração e armazenamento de água e menor perda por escorrimento superficial e por erosão. Este maior teor de matéria orgânica ainda equivale a captura do CO2 da atmosfera e a sua estocagem no solo, mecanismo importante para mitigar o aquecimento global.

Duas questões têm sido apresentadas à pecuária: a primeira é que a expansão do setor, via aumento na área de pastagens, incentiva o aumento do desmatamento. A segunda diz respeito à emissão de gases de efeito estufa, particularmente o metano, pelo rebanho bovino.

A pecuária, na sua origem, foi uma atividade pioneira, associada à expansão da fronteira agrícola, em resposta à conjuntura macroeconômica e aos valores da sociedade no passado que apontavam para a necessidade de ocupar o território. Entretanto, nas últimas décadas, o modelo de produção da pecuária mudou sensivelmente e passou a priorizar tecnologias mais intensivas em capital, as quais vêm gerando significativos ganhos na produtividade e, consequentemente, um expressivo efeito poupa-terra.

Com base nos dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), de 1970 e de 2006, a produção nacional de carne bovina foi de 1.845,18 e 6.886,58 mil toneladas de equivalente-carcaça, respectivamente. A produtividade passou de 13,82 kg/ha, em 1970, para 43,38 kg/ha de equivalente-carcaça, em 2006, representando um robusto ganho de produtividade da ordem de 3,23% ao ano. Estes ganhos responderam por cerca de 87% do crescimento da produção (5.041 mil t de equivalente-carcaça), que cresceu a taxas anuais de 3,73% no período. A expansão da área de pastagens, de 133,48 para 158,75 milhões de ha – equivalente a uma taxa de crescimento de 0,48% ao ano e explicou apenas 13% do aumento na produção do período 1970-2006.

Os ganhos de produtividade da pecuária, ao disponibilizar terras para outras atividades agrícolas, permitiram a expansão da produção de alimentos e biocombustíveis no país sem concomitante expansão na área de culturas e pastagens. Em 1995, de acordo com o Censo Agropecuário do IBGE, a área de ‘lavouras+pastagens’ foi de 219,49 milhões de ha. Em 2006, ‘lavouras+pastagens’ ocuparam 218,60 milhões de ha.

Essa expressiva mudança na estrutura produtiva da pecuária nacional, pautada em ganhos de produtividade, gerou notável ‘efeito poupa-terra’. Devido aos ganhos em taxa de lotação, que passou de 0,59 cabeças/ha, em 1970, para 1,08 cabeças/ha, em 2006, este ‘efeito poupa-terra’ foi de 132 milhões de hectares. Quando os ganhos devidos à taxa de lotação e ao desempenho animal no período de 1970-2006 foram computados, o ‘efeito poupa-terra’ aumentou para cerca de 340 milhões de hectares. Sem estes ganhos, para obter a mesma produção, o adicional de 340 milhões de hectares teriam que ser incorporados à produção.

Com relação às emissões de gases de efeito estufa pelo efetivo bovino brasileiro, verifica-se grande potencial para a expansão da produção de carne bovina no país sem aumento proporcional nas emissões. Há, na verdade, oportunidade para se aumentar a produção de carne bovina mantendo-se estáveis os níveis atuais de emissão de metano. Esta condição ocorre pelo aumento no desempenho produtivo e reprodutivo do animal, que determina menor emissão por unidade de produto, quando tecnologias e sistemas de produção mais eficientes na geração de desempenho animal são adotados. Exemplificando, análises recentes mostraram ser possível reduzir as emissões de metano por unidade de ganho de peso vivo em aproximadamente 40% quando a recria-engorda de bovinos é feita na integração lavoura-pecuária ou em confinamento, ao invés da terminação realizada em pastagens degradadas.4

Como comentário final, críticas vêm sendo feitas à pecuária no sentido de que ela precisa trilhar o caminho da sustentabilidade. Certamente há muito o que avançar. Entretanto, a análise de algumas das estatísticas oficiais disponíveis permite concluir que a pecuária nacional já vem buscando o caminho da sustentabilidade há décadas, e que esse esforço do setor tem produzido significativos benefícios sócio-econômicos e ambientais para a sociedade. Esta expressiva evolução do setor, nos últimos 35 anos, refletiu um conjunto de importantes fatores. O desenvolvimento de uma agropecuária baseada em ciência foi fundamental.

1 Extraído de artigo em fase final de revisão na Revista de Política Agrícola.
2Pesquisador da Embrapa Estudos Estratégicos e Capacitação. Bolsista CNPq. geraldo.martha@embrapa.br.
3Dados obtidos junto ao Agrostat Brasil, do MAPA, a partir de estatísticas do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio. O saldo refere-se a exportações subtraídas das importações de carne bovina.
4Barioni, L.G.; Martha Jr., G.B., Sainz, R.D. Emissões do setor da pecuária. In: Gouvello, C. Estudo de baixo carbono para o Brasil. Brasília: Banco Mundial, 2010. (Tema D, Relatório Técnico). (compact disk).



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