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Perspectivas do mercado de carne vermelha no Brasil

Alexandre Lahóz Mendonça de Barros1

A economia da carne vermelha no Brasil segue misteriosa. É difícil entender em profundidade as transformações por que passa o setor pecuário no país. O fato mais curioso do ano de 2006 diz respeito ao mercado internacional e ao volume de abates. No final do ano passado, em conseqüência ao surgimento do foco de aftosa no Mato Grosso do Sul, esperava-se um ano de exportações mais fracas e, portanto, haveria pressão para redução no volume de abates. Ocorre que até meados do presente ano o oposto se deu: o volume de abate cresceu quase 6% e as exportações em volume aumentaram 3,8% e 15,8% em valor. A despeito disso, os preços recebidos pelos produtores caíram em algumas praças, ou se estabilizaram em outras.

A pergunta fundamental a ser respondida é: por que há tanta diferença entre o comportamento dos preços no mercado internacional e no mercado interno? Em algum momento no futuro próximo pode-se esperar uma aproximação entre esses mercados como ocorre com a soja, por exemplo?

A resposta mais fácil para essa assimetria de preços é a taxa de câmbio. A forte apreciação do real ocorrida nos últimos 3 anos fez com que os preços internacionais traduzidos em reais se reduzissem fortemente. As cotações no início de 2003 encontravam-se em patamares de 3,5 reais por dólar, ao passo que hoje se situam ao redor de 2,15. É uma perda de valor considerável. Não sabemos ao certo o efeito total dos preços internacionais no processo de formação dos preços internos no Brasil, mas é certo que a crescente participação das exportações na produção doméstica (hoje cerca de 25%) está alterando o funcionamento do mercado brasileiro em direção a torná-lo cada vez mais conectado ao mercado mundial.

Entretanto, a taxa de câmbio não explica tudo. É crescente a percepção que os ganhos na cadeia da carne vermelha estão concentrados no setor da indústria voltado a exportação, pois estão se beneficiando de um preço da @ baixa no Brasil e um preço da carne alta no mundo. O mesmo não pode ser dito daquelas indústrias voltadas ao mercado doméstico. Essas estão trabalhando com margens muito baixas ou negativas. É provável que os preços recebidos pelos pecuaristas permaneçam baixos por um conjunto de razões. Do ponto de vista da oferta parece claro que a carne de frango vem estabelecendo um limite de alta no preço da carne vermelha no Brasil. A despeito do reconhecido desejo de consumo do brasileiro pela carne bovina, as restrições de renda do consumidor associadas à oferta crescente de frango restringem fortemente o poder de alta da carne vermelha. Esse fato ficou claro no evento do surgimento da Gripe Aviária na Europa: com a queda do consumo de frango naquele continente, a súbita elevação dos estoques europeus desse produto forçou a forte redução nas importações de carne brasileira, que, por sua vez, acabou por inundar o mercado interno pressionando as cotações de todas as carnes para baixo. A queda de margem da indústria doméstica foi instantânea.

Outra razão relevante para a determinação dos baixos preços do boi gordo tem a ver com a grande oferta de animais no Brasil. De acordo com os dados do IBGE, o rebanho brasileiro vem crescendo sistematicamente, especialmente nas regiões norte e centro-oeste. Além disso, fica evidente que a produtividade do rebanho brasileiro também cresce sistematicamente. Melhoria nutricional decorrente de preços baixos dos insumos advindos da agricultura, melhoria nas pastagens, uso crescente de melhoramento genético, avanço nas técnicas de manejo, integração entre lavoura e pecuária, etc constituem a realidade da pecuária de corte no país. Os mapas apresentados nesta página indicam a densidade do rebanho brasileiro em cada município do Brasil nos anos de 1990 e 2004. Para elaborar os mapas dividimos o número de cabeças do município por sua respectiva área. Sabemos que o ideal seria dividir o rebanho pela área de pastagens, mas, infelizmente, essa informação não existe para os referidos anos. Acreditamos, entretanto, que a divisão pela área do município constitui boa aproximação para analisar o aumento da produtividade. É nítido que houve intensificação da produção em todo país (cores mais escuras indicam maior relação cabeças/hectare).

Até quando esse aumento de oferta se dará? Os baixos preços não estariam estimulando a redução no rebanho brasileiro? É difícil responder essa questão, pois as estatísticas brasileiras relativas à pecuária de corte são muito precárias. Usualmente utiliza-se o abate de fêmeas como parâmetro de dimensionamento do comportamento do rebanho futuro. Observa-se nos últimos anos respeitável aumento no número de fêmeas abatidas, o que poderia sinalizar uma tendência de mudança no ciclo. Ocorre que em um mundo de aumento de produtividade espera-se que o número total de fêmeas abatidas aumente. Além disso, houve uma redução no abate informal no país de acordo com as estatísticas do número de cabeças abatidas e do número de peças de couro levantados pelo IBGE. Ou seja, como no mercado informal abatem-se proporcionalmente mais fêmeas do que machos, a redução na informalidade levaria naturalmente a um aumento nas estatísticas de abate de fêmeas. É possível notar, portanto, que os dados relativos ao de abate de fêmeas podem não ser um previsor do comportamento do rebanho em um mundo de transformações tecnológicas e mudanças da base estatística.

Em decorrência das dúvidas expostas acima, torna-se fundamental o acompanhamento dos preços do bezerro para ajudar na análise do comportamento futuro do rebanho brasileiro. Os meses de junho e julho sinalizaram em algumas praças uma ligeira reversão nos preços do bezerro com relação ao boi gordo após um período de sucessivas quedas É possível, embora seja cedo para afirmar, que esteja ocorrendo um relativo encurtamento da oferta.

Caso essa trajetória de oferta se consolide, é possível esperar para o próximo ano alguma melhora nos preços internos. Em outubro completa 1 ano desde o surgimento do primeiro foco de aftosa no país. Em tese, os mercados europeus e chileno devem voltar a se abrir para o país, salvo algum novo problema sanitário surja nos próximos meses. Dado o já alto crescimento das exportações, a liberação desses mercados consistiria elemento relevante ao aumento da demanda pela carne vermelha brasileira. Esse fato, associado a alguma desvalorização do real decorrente tanto da redução da taxa de juro brasileira, quanto da diminuição dos saldos comercias devido ao aumento das importações, serviriam como uma base de preço mais alta no país como um todo. Estamos vivendo um ano de eleições e o aquecimento econômico interno é um fato já observado em diversos setores da economia; o que serve como estímulo aos preços internos.


Mapa 1 - Relação de cabeças de gado bovino por hectare nos municípios brasileiros em 1990


Mapa 2 - Relação de cabeças de gado bovino por hectare nos municípios brasileiros em 2004

1 Escola de Economia de São Paulo (FGV) e sócio da MB Agro.


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