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Sementes JC MASCHIETTO

Artigo publicado na Revista JC Maschietto ano 03, no 03, set/2005

O Marketing do Boi
Dep. Federal Xico Graziano

Eng. Agrônomo, mestre em Economia Rural e doutor .em Administração;
foi Presidente do INCRA no governo Fernando Henrique Cardoso e Secretário da Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, durante o primeiro mandato de Mário Covas, ao término do qual foi eleito Deputado Federal.

Os pecuaristas brasileiros estão surpresos, até um pouco abalados, com a evolução dos preços da arroba do boi. Em um momento de grande sucesso das exportações, vêem-se atingidos pela queda de sua renda.

As razões conjunturais para esses preços baixos são facilmente reconhecidas: dólar muito desvalorizado em relação ao real, queda de preços dos subprodutos couro e farinha de carne, abate de fêmeas, causado pelos próprios preços baixos, pressionando ainda mais o mercado. Há, entretanto, também razões estruturais para preços baixos.

A primeira delas é a própria evolução tecnológica por que passa a pecuária brasileira: os bois brasileiros eram abatidos, há não muitos anos, com idade média de 48 meses. Hoje são abatidos em torno dos 30 meses, o que significa um enorme aumento do desfrute do rebanho e, portanto, maior oferta pressionando o mercado. Claro que, por aí, não há o que fazer. Ninguém imagina piorar a tecnologia para diminuir a oferta. Há, entretanto, que se lembrar que a melhoria dos índices zootécnicos e de lotação de pastos tem, felizmente, amplos reflexos na baixa dos custos de produção. Esse efeito, teoricamente, permite buscar lucros mesmo com preços em queda.

Uma segunda razão que explica o preço ruim está no relacionamento entre os criadores e a indústria. Sabe-se que, historicamente, nunca houve boa confiança entre pecuaristas e frigoríficos. Fora os calotes históricos, ninguém acredita no peso das balanças, nem nos descontos por alegada falta de qualidade. Em resumo, a sensação geral do pecuarista é a de estar sendo permanentemente "embrulhado" quando manda sua boiada para abate.

É claro que esse tipo de relacionamento em nada colabora para algo que é essencial no sucesso de qualquer cadeia do agronegócio: a sua coordenação. O trabalho conjunto na busca da evolução dos produtos e dos mercados é praticamente inexistente na cadeia de produção de carne bovina. Basta compará-la com a cadeia da carne avícola para compreender bem o problema: a indústria de aves tem um relacionamento muito estreito com os granjeiros, determina a tecnologia a ser empregada, os padrões de qualidade, a época e o volume da produção de cada um e assim por diante. Industrializada a carne, faz um amplo e competente trabalho de marketing, preparando produtos cada vez mais elaborados - agregando valor - e faz propaganda da carne de frango e seus derivados.

Muito pouco dessa agenda é cumprida na cadeia produtiva da carne bovina. Se o consumidor quiser fazer um churrasco, por exemplo, tem que ir pessoalmente à loja de um açougueiro seu conhecido e examinar cada peça da carne que vai comprar, porque raramente há garantia de marca na carne bovina, um produto que mantenha sempre os mesmos padrões, que ele possa comprar pelo telefone ou pela internet. Ou seja, falta ao consumidor confiança na qualidade da carne bovina e isso, nos dias atuais, é sinônimo de grave problema. Essa confiança foi laboriosa e inteligentemente construída pela cadeia produtiva da carne avícola ao longo de quatro ou cinco décadas. Antes dessa organização e coordenação, também não havia confiança em seus produtos e, nessa época, o consumo de carne bovina superava muito o da carne avícola.

Outra razão estrutural para a estagnação de preços é a falta de agregação de valor aos produtos bovinos. A carne de aves e, mais recentemente, a de suínos, têm evoluído muito no processo de "descomoditização", quer dizer, de diferenciação do produto "carne". Até as piores partes das carnes de frango e de suíno viram nuggets, frios, croquetes, tortas prontas e assim por diante, tudo isso acompanhado de muita propaganda, conquistando mercados, exatamente os mercados da carne bovina.

É certo que ninguém imagina que possa ocorrer na cadeia de produção de carne bovina um processo idêntico ao que ocorreu na cadeia avícola: os produtores de frangos são muito diferentes dos pecuaristas, suas propriedades são muito menores, a mão de obra que utilizam é majoritariamente familiar, seu modo de pensar admite contratos com a indústria, que dificilmente um pecuarista admitiria, especialmente se essa indústria frequentemente não é confiável.

A saída, portanto está em outros mecanismos para organizar a cadeia produtiva, mecanismos que sejam conduzidos pelos próprios pecuaristas. Aqui há, novamente, alguma dificuldade: os agricultores de soja, de café, de algodão, de frutas e hortaliças vêm conseguindo avançar na agregação de valor para seus produtos através do associativismo, assunto que não agrada aos pecuaristas. Sejam as cooperativas no molde tradicional, seja a constituição de grupos de comercialização, à semelhança dos "pools" de citricultores, algo precisa ser feito nesse sentido. Pode começar com um grupo pequeno, mas coeso, de bons pecuaristas, garantindo o mesmo padrão de qualidade e que, eventualmente, ao crescer, viesse até a implantar seu próprio frigorífico. Carne com marca, com qualidade garantida, com rastreabilidade sanitária, feita pelos próprios produtores. É uma mudança cultural profunda, mas quase certamente necessária.

Outro passo importante para melhorar a coordenação do setor seria a criação de um Comitê de Promoção da Carne Bovina, órgão que teria como objetivo o marketing da carne bovina. O SIC já presta tal serviço, mas é ainda limitado. Será preciso ousar: dar orientação na pesquisa zootécnica, para ter produto que atenda à necessidade dos clientes, capacitação em todas as fases para obter a qualificação do produto, estabelecimento de padrões para cada mercado, construção de parcerias, planejamento das ações, logística, propaganda. Esse Comitê, à semelhança dos que existem há décadas nos Estados Unidos e na Austrália, nossos grandes concorrentes, seria uma entidade público-privada com poderes juridicamente estabelecidos, com fundos com origem parte privada e parte oficial e Direção Executiva de representantes da iniciativa privada.

No curto prazo, infelizmente, a conjuntura não é boa. No longo prazo, a depender da ação dos próprios pecuaristas e do fortalecimento de sua organização, o futuro pode ser brilhante: não há no mundo nenhum lugar melhor para produzir carne bovina que o Brasil. E os nossos concorrentes sabem disso!



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